Uma experiência vocal viva, expressiva e marcada por diferentes nuances sonoras. Foi com essa proposta que o Ensemble Vozes Entretom subiu ao palco do Teatro do Sindipetro-NF, em Macaé, nesta quinta-feira (1º), como um dos destaques do Festival QualiTeclas em Cena, realizado em comemoração ao Dia Internacional da Música. A programação também contou com a participação do pianista J.V. Aprígio e de alunos da QualiTeclas Escola de Música, reunindo diferentes experiências e momentos da formação musical. Regente convidado da apresentação, Jardél Màia explica que o trabalho desenvolvido pelo Ensemble vai além do canto. Sucesso como “Desde Que o Samba É Samba” de Caetano Veloso, “Encontros e Despedidas”, de Milton Nascimento e “Samba do Avião”, de Tom Jobim, foram apresentadas pelo grupo nesta noite.
“Entregamos um repertório que toca e emociona levando o melhor da música popular brasileira. O que torna este encontro especial no Festival QualiTeclas em Cena é a convergência entre a arte do piano/teclado e o instrumento humano na sua forma mais pura: o coletivo de vozes”, pontua Jardél, acrescentando que levar o Ensemble para esse ambiente fortalece o diálogo entre a precisão instrumental e a organicidade do canto em grupo.
Preparação une técnica e identidade vocalSegundo o regente, a preparação de um ensemble exige uma pedagogia rigorosa e humanizada.
“Trabalhamos fundamentados no canto. A preparação envolve desde o alinhamento técnico até a homogeneidade dos naipes, preservando a identidade tímbrica de cada cantor”, esmiuçou.
Quanto aos arranjos e ao repertório, o cuidado também foi destacado pelo maestro.
“Buscamos peças que valorizem a amplitude dinâmica do grupo — dos momentos de absoluta delicadeza e pianíssimos ressonantes até as grandes explosões polifônicas. Cada arranjo foi pensado para desafiar a percepção harmônica do grupo e, ao mesmo tempo, oferecer ao ouvinte um percurso emocional fluido e impactante”, ressaltou.
O palco como extensão da sala de aula
A experiência de se apresentar ao lado de artistas com diferentes trajetórias representa, segundo Jardél, uma etapa importante na formação dos estudantes.
“O palco é a extensão definitiva da sala de aula. Para o estudante em formação, a vivência de palco no contexto de um festival não é apenas a exibição de um aprendizado, mas a consolidação da sua presença artística e do seu domínio técnico sob exigência real”, citou.
De acordo com ele, essa convivência amplia as possibilidades de aprendizado.
“O aluno observa na prática como o artista mais experiente gerencia a afinação, o fluxo respiratório, a sustentação do suporte diante da ansiedade e a comunicação com a plateia. Essa troca desmistifica o fazer musical e acelera o amadurecimento técnico e emocional do jovem cantor”, explicou.
Encontro entre estudantes e profissionaisPara Jardél, a presença de estudantes e profissionais no mesmo grupo também contribui diretamente para a sonoridade do Ensemble.
“Um grupo composto exclusivamente por estudantes pode carecer de peso e consistência técnica; um grupo composto apenas por profissionais maduros pode, por vezes, perder o frescor da descoberta. A junção dessas duas pontas gera um equilíbrio único”, avaliou.
O maestro comenta que os cantores profissionais trazem segurança estrutural, afinação precisa e rigor na interpretação das dinâmicas, enquanto os estudantes acrescentam energia e frescor interpretativo.
“Sob a regência, o trabalho é canalizar essas 31 identidades sonoras em um único corpo vocal equilibrado, onde a maturidade guia e o entusiasmo impulsiona, resultando em uma massa sonora refinada e cheia de vida. Eu particularmente adoro trabalhar com essa diversidade”, comemorou.
Trajetória alia canto, educação e pesquisa vocal
A atuação de Jardél Màia em Macaé reúne diferentes frentes da música e da educação. Cantor, ator, diretor musical, maestro, arranjador e preparador vocal, ele é licenciado em Música pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pós-graduado em Gestão e Políticas Educacionais pela Claeh, de Montevidéu, no Uruguai, e especialista em Educação e em Fisiologia da Voz.
Desde 2012, atua como professor dos cursos Básico e Técnico de Canto da Escola Municipal de Artes Maria José Guedes (Emart), em Macaé. Em 2023, criou o Ensemble Vozes Entretom no município, desenvolvendo estudos de Fisiologia da Voz e uma metodologia que reúne Belting, Speech Level Singing (SLS), Canto Lírico e Legit, com foco na ampliação da versatilidade dos intérpretes.
Para Jardél, iniciativas que aproximam formação musical, artistas locais e público ampliam o papel da música na cidade.
“Projetos que conectam ensino, prática artística e comunidade são o verdadeiro motor de transformação cultural de um município”, afirmou.
Segundo ele, levar o trabalho desenvolvido em sala de aula para teatros, praças e festivais contribui para a formação de público, valoriza os artistas locais e cria novas oportunidades para quem está em processo de formação.
“Quando a formação de base se encontra com o palco e com a comunidade, a música deixa de ser mero entretenimento e passa a cumprir sua função social e humana mais profunda”, enumerou.
Festival marcou encerramento do ano letivo
O Festival QualiTeclas em Cena foi a culminância do ano letivo dos alunos da QualiTeclas Escola de Música, voltada ao ensino de teclado e piano. A produção geral foi de Fred Cnop, mestre em Epistemologia e Ensino da Música pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Cnop foi aluno de piano, na UFRJ, de Cláudio Dauelsberg, Paula Faour e Flávio Augusto Borges.
A programação começou com a apresentação do Ensemble Vozes Entretom. Em seguida, foi a vez do pianista J.V. Aprígio. O recital de alunos aconteceu após e, encerrando a noite, Fred Cnop e J.V. Aprígio apresentaram um repertório para piano a quatro mãos.
