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Gamescom Latam reúne criatividade, empreendedorismo e políticas públicas

Gamescom Latam reúne criatividade, empreendedorismo e políticas públicas

Se em eventos corporativos o uniforme costuma ser previsível — blazer, camisa e sapato social — na Gamescom Latam, em São Paulo, a lógica é outra. Aqui, executivos dividem espaço com samurais digitais, criaturas do folclore brasileiro e personagens saídos diretamente de universos pixelados.

Mas por trás dos looks nada convencionais, há algo mais estruturado do que parece à primeira vista. A maior feira de games da América Latina, que acontece entre 30 de abril e 3 de maio, em São Paulo, se consolida como uma vitrine de negócios, especialmente para pequenos estúdios brasileiros que tentam ganhar espaço em um mercado global bastante competitivo.

No estande do Sebrae, o contraste fica ainda mais evidente. Entre capas, espadas e orelhas de elfo, jovens empreendedores apresentam jogos que vão de uma barraca de pastel à floresta Amazônica, todos tendo em comum a tentativa de transformar criatividade em empresa.

Júlia Lobo, fundadora da Lobo House Interactive (fotos: Túlio Vidal)

Da feira de rua à floresta amazônica

“Eu digo com muita tranquilidade que o Pastelo não existiria como ele é hoje sem o Sebrae”, afirma Julia Lobo, fundadora da Lobo House Interactive. O jogo que ela trouxe para a feira é, no mínimo, inusitado: um simulador de pastelaria inspirado nas feiras de rua brasileiras.

No Pastelo, o jogador administra uma barraquinha, frita pastéis e evolui o negócio enquanto atende clientes. “A ideia é celebrar a culinária de rua brasileira, trazer sabores, referências culturais e criar um ambiente leve. É aquele momento depois do trabalho, pra relaxar e esquecer dos problemas por alguns minutos”, diz.

A estética delicada pode sugerir um público mais jovem, mas Julia mira em outro perfil. “A gente pensa em jovens adultos, pessoas que querem uma experiência mais tranquila, mas com identidade cultural.”

A trajetória de Julia no setor começou ainda na adolescência em um curso técnico de informática. “Era uma turma muito masculina. Entrar na área de jogos nunca foi simples, mas hoje fico muito feliz quando vejo outras meninas interessadas. A gente precisa ocupar esse espaço.”

Segundo ela, o apoio do Sebrae foi decisivo para tirar o projeto da ideia. “Além da parte técnica e de negócios, tem a motivação. A gente ainda trabalha de forma voluntária. Saber que está aqui, na Gamescom, muda tudo.”

Ciro Facundo, da KGame

Diretamente do Acre, Ciro Facundo, da KGame, apresenta o Reforest, um simulador baseado em agricultura sintrópica, modelo de produção agrícola que imita o funcionamento da natureza. “É um jogo pra relaxar. Não tem ganhar ou perder. Você entra pra experimentar”, explica.

A proposta mistura entretenimento e educação ambiental. “Mas a gente também teve que aprender a empreender”, diz. “O Sebrae foi essencial pra entender modelo de negócio, impostos, estrutura. Foi um salto.”

Outro destaque é o Lendas, de Kaio Pessoa, da Lendas Studio. Inspirado em títulos como Minecraft, o jogo mistura sobrevivência, folclore brasileiro e inteligência artificial. “A grande diferença é que você pode resolver tudo no diálogo. Os personagens usam IA, então cada interação é única”, explica. A participação dele na feira veio por meio de uma seleção nacional. “Passei entre projetos do Brasil inteiro. E já valeu a pena. Aqui você conhece gente, cria conexão, abre porta.”

Kaio Pessoa, da Lendas Studio (fotos: Túlio Vidal)

A ponte entre estúdios e mercado

Essa conexão com o mercado é justamente o foco da atuação do Sebrae no evento. Além do estande, a instituição promove rodadas de negócios e encontros com publishers, investidores e parceiros internacionais, um movimento que busca inserir pequenos estúdios brasileiros em cadeias globais.

“Nossa expectativa é reforçar o evento como uma grande vitrine de oportunidades. É aqui que esses estúdios testam seus projetos e avançam em negociações”, afirma Eúde Amor, gestor de Competitividade do Sebrae Nacional. Segundo ele, o olhar vai além do produto final.

Não avaliamos só o jogo, mas o modelo de negócio, estratégia e capacidade de crescer,Eúde Amor, do Sebrae Nacional

Essa lógica se materializa no Edital Sebrae Games 2026, que organiza uma jornada nacional de reconhecimento e acesso a mercado para estúdios em desenvolvimento. Com inscrições até 5 de maio, a iniciativa seleciona 15 projetos com melhor desempenho técnico, que passam a integrar uma vitrine digital com exposição nacional e internacional. Entre eles, os cinco mais bem avaliados avançam para uma missão na Gamescom Cologne, na Alemanha, ampliando as possibilidades de conexão com publishers, investidores e parceiros globais.

O avanço dessas iniciativas ocorre em um momento estratégico para o setor. O Brasil já é o maior mercado consumidor de games da América Latina e figura entre os dez maiores do mundo, mas ainda trabalha para consolidar sua posição como produtor mais competitivo.

Parte dessa virada passa por políticas públicas. O marco legal da indústria de jogos eletrônicos, em vigor desde 2024, trouxe mais clareza regulatória ao setor, reconhecendo oficialmente os games dentro da economia criativa e abrindo caminho para novos instrumentos de fomento, financiamento e internacionalização. Ainda assim, o desafio segue na calibragem dessas ferramentas à realidade dos pequenos estúdios.

“Os instrumentos existem, mas precisam dialogar melhor com o perfil do setor”, afirmou Marconi Viana, do BNDES, durante painel sobre financiamento. Segundo ele, linhas mais robustas, muitas vezes acima de R$ 10 milhões, ainda não alcançam a maioria dos desenvolvedores.

Na frente internacional, a ApexBrasil atua para posicionar o país no mercado global. “Nosso papel é ajudar as empresas a se projetarem no exterior e atrair investimentos, respeitando o nível de maturidade de cada estúdio”, afirmou Eros Rams Tomás da Silva.

Ao mesmo tempo, o governo federal tem ampliado a presença institucional do setor. “Hoje já temos representação do setor de games no Conselho Superior de Cinema, o que começa a refletir diretamente nas políticas construídas para a área”, disse Joelma Oliveira Gonzaga, da Secretaria do Audiovisual. Entre as iniciativas, está o enquadramento dos jogos em mecanismos como a Lei Rouanet, ampliando o acesso a recursos mais robustos, além da estruturação de equipes dedicadas à análise de projetos.

Na base desse ecossistema, o Sebrae reforça o papel de estruturação. “O crédito é importante, mas precisa ser assistido”, diz Eúde. “O desenvolvedor precisa entender como usar esse recurso, como acessar mercado. Sem isso, o caminho fica muito mais difícil.”

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