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Inflamação bucal pode agravar danos cerebrais associados ao Parkinson, mostra estudo

Inflamação bucal pode agravar danos cerebrais associados ao Parkinson, mostra estudo

Inflamação bucal pode agravar danos cerebrais associados ao Parkinson, mostra estudo

A inflamação crônica causada por doenças na gengiva pode afetar muito mais do que a boca: pode acelerar a perda de neurônios no cérebro, agravando os sintomas da doença de Parkinson. Este é um dos principais resultados de um estudo conduzido em modelo animal por pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (Forp) da USP. 

A equipe, orientada pelas professoras Glauce Crivelaro do Nascimento e Elaine Aparecida Del Bel Belluz Guimarães, ambas do Departamento de Biologia Básica e Oral da Forp, verificou que a periodontite – infecção bacteriana dos tecidos de suporte dentário – intensifica processos inflamatórios no cérebro e agrava a degeneração de neurônios responsáveis pela produção de dopamina, substância essencial para o controle dos movimentos.

A hipótese do estudo foi apoiada em evidências científicas recentes mostrando que inflamações crônicas iniciadas fora do cérebro, como as que ocorrem na gengiva, podem afetar o sistema nervoso central. Isso acontece porque substâncias inflamatórias liberadas na corrente sanguínea chegam até o cérebro e ativam células do sistema imunológico local, provocando o chamado estresse oxidativo – um desequilíbrio químico que danifica as células e acelera o envelhecimento do tecido nervoso. Assim, o grupo decidiu investigar, em modelo animal, se uma inflamação bucal prolongada poderia intensificar a perda de neurônios e os déficits motores típicos da doença de Parkinson.

Inflamação periférica crônica pode chegar ao cérebro

A doença de Parkinson é uma condição neurodegenerativa que causa a perda gradual dos neurônios produtores de dopamina. Quando esses neurônios morrem, surgem sintomas como tremores, rigidez muscular e lentidão motora.

Já a periodontite é uma infecção bacteriana crônica que atinge as gengivas e os tecidos que sustentam os dentes. É provocada pelo acúmulo de placa bacteriana e pode causar sangramento, retração da gengiva e até perda dentária, mas não se limita à área bucal. “A inflamação periférica crônica, mesmo quando localizada na boca, pode induzir ou agravar processos inflamatórios no cérebro, contribuindo para a degeneração dos neurônios dopaminérgicos da substância negra – região do cérebro responsável por produzir a dopamina”, afirma Glauce.

A hipótese, explica a pesquisadora, é que os mediadores inflamatórios liberados na periodontite, como o fator TNF-α (sigla para necrose tumoral alfa, que designa pequenas proteínas importantes no sistema imune), entram na corrente sanguínea e alcançam o sistema nervoso central, ativando as micróglias (células protetoras do sistema nervoso) e aumentando o estresse oxidativo.

“Esses fatores tornam o ambiente cerebral mais hostil, o que acelera a perda neuronal típica do Parkinson.”

Estado inflamatório com reflexos no cérebro

Para investigar a relação entre Parkinson e periodontite, os pesquisadores realizaram testes em ratos divididos em quatro grupos: um controle (saudável), um com periodontite, outro com lesão dopaminérgica (modelo de Parkinson) e um quarto grupo com a combinação das duas condições. 

A periodontite foi provocada pela colocação de uma ligadura em volta dos dentes molares, o que causa acúmulo bacteriano e inflamação. Já a lesão dopaminérgica foi provocada por meio da administração de uma substância, chamada 6-hidroxidopamina (6-OHDA), que destrói seletivamente neurônios produtores de dopamina no corpo estriado – região do cérebro envolvida no controle dos movimentos. Desta forma, segundo Glauce, foi possível “avaliar de forma integrada os efeitos da inflamação periférica sobre o sistema nervoso central e compreender como a saúde bucal pode interferir em processos neurodegenerativos”.

Os animais passaram por testes que avaliam coordenação motora e equilíbrio, como o rotarod – em que o rato precisa caminhar sobre uma roda giratória – e o teste da caminhada, que mede o uso das patas dianteiras. Também foram feitas análises de sangue, microtomografia da mandíbula para confirmar a perda óssea causada pela periodontite, além de exames histológicos e moleculares do cérebro para avaliar inflamação, estresse oxidativo e morte neuronal.

Os resultados mostraram que os animais com periodontite apresentaram pior desempenho nos testes motores, especialmente quando combinada à lesão dopaminérgica. Houve também maior perda desses neurônios no corpo estriado e aumento da ativação de micróglia e astrócitos – células de defesa que, quando hiperativas, contribuem para a inflamação cerebral.

Além disso, o grupo com ambas as condições apresentou aumento de espécies reativas de oxigênio (ROS) – moléculas tóxicas que danificam as células – e níveis mais altos da citocina inflamatória TNF-α no sangue, acompanhados de queda na citocina IL-10, que tem efeito anti-inflamatório. “Esses achados indicam um estado inflamatório sistêmico que se reflete no cérebro, amplificando a neurodegeneração”, explica Glauce.

A professora Elaine acrescenta que essa inflamação periférica pode atingir o cérebro por diferentes vias. “Há indícios de que as substâncias inflamatórias consigam atravessar a barreira hematoencefálica – uma espécie de filtro protetor do cérebro -, além de possíveis conexões anatômicas entre as vias oronasais e o sistema nervoso central e até mesmo interações mediadas pela microbiota oral e intestinal”, destaca.

Conexão entre saúde bucal e neurodegeneração

O trabalho reforça o conceito de que a periodontite vai muito além de um problema odontológico. “Ela é uma condição inflamatória sistêmica capaz de afetar órgãos distantes. O estudo mostra um mecanismo biológico plausível para explicar por que pacientes com periodontite apresentam maior risco e progressão mais rápida da doença de Parkinson.”

As pesquisadoras ressaltam que os resultados foram obtidos em modelo experimental, mas trazem implicações clínicas importantes. O controle da inflamação oral, por meio de tratamento periodontal adequado e acompanhamento odontológico regular, pode ajudar a reduzir a carga inflamatória sistêmica e, potencialmente, retardar a progressão de doenças neurodegenerativas.

Com base nesses resultados, o grupo iniciou novos experimentos para testar intervenções terapêuticas que possam reverter ou prevenir a neurodegeneração associada à inflamação periodontal. “Estamos avaliando, por exemplo, o uso de compostos com ação anti-inflamatória e antioxidante, como o canabidiol, para investigar se conseguimos proteger os neurônios dopaminérgicos nesse modelo”, informa Elaine.

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