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Povoado no Maranhão turbina turismo com resgate de saberes

Povoado no Maranhão turbina turismo com resgate de saberes

Às margens do Rio Preguiças, no município de Barreirinhas (MA) que dá acesso aos Lençóis Maranhenses, o tempo parece parar no povoado Tapuio. A comunidade de cerca de 160 famílias, que se mantém com o cultivo de verduras, hortaliças e frutas, encontrou uma nova atividade para gerar renda e fortalecer a própria cultura. Eles reativaram, para demonstração, a antiga casa de farinha. No local, turistas aprendem a técnica artesanal da produção do pó extraído da mandioca, bem como todos os produtos derivados dela, como amido e o tucupi.

Quem comanda o ‘show’ é José Maria Diniz Araújo, um morador do povoado, que, entre explicações históricas e simulações de como obter a farinha, faz piada com os grupos de visitantes e arranha um francês para não deixar ninguém sem entender.

“Os franceses têm visitado muito o turismo de base comunitária aqui e valorizam imensamente, até mais do que nós. Eles gostam de conhecer a cultura, a identidade. Então, vou levando o passeio com o meu francês. Tenho também a minha metodologia na comunicação. O europeu sai daqui satisfeito porque se surpreende com tanta riqueza cultural”, conta José Maria.

Foto: Raquel Chaves

Com o passeio para conhecer a casa de farinha, o povoado chega a receber três grupos por semana na alta temporada. A atividade incrementa a renda do povoado, baseada na agricultura, em até 40%, segundo José Maria. Ele se diz fã do turismo de base comunitária, fomentado na região pelo Sebrae. Capacitações sobre precificação, storytelling para receber visitantes e design são muito importantes, diz José Maria.

“É um turismo totalmente diferente do que é feito atualmente. Nos ajuda sem nos pressionar, sem ser sufocante. Quando o turista chegar aqui, as pessoas da comunidade estarão fazendo suas atividades diárias e assim continuarão. Isso nos dá mais firmeza em permanecer no local, preservando nossa floresta, nossas árvores, já que a especulação imobiliária é forte”, conta José Maria.

Segundo ele, aos poucos os operadores de turismo estão oferecendo passeios como o da Casa da Farinha do Povoado Tapuio. Mas ainda é preciso muita articulação para garantir um espaço ao sol em meio ao turismo de massa que a região dos Lençóis Maranhenses vive. José Maria também se ressente da falta de interesse dos mais jovens na produção de farinha, o que faz a casa não funcionar mais como antigamente.

Foto: Raquel Chaves

Flavia Nadler, gestora de Turismo e Artesanato do Sebrae Maranhão, destaca o potencial do turismo de base comunitária no resgate de práticas históricas como essa. “Quando falamos de turismo regenerativo, além do aspecto sustentável, falamos de uma atividade que incentiva, por meio da geração de renda, a perenidade dos saberes tradicionais. O turismo envolve a comunidade, valoriza a cultura e ajuda a não perdermos tradições. E hoje há turistas que buscam experiências autênticas, esse retorno às origens e ao ancestral”, ressalta.

Mais adiante, também no Rio Preguiças, outra comunidade que ampliou oportunidades com o turismo foi o Povoado Marcelino. Assim que o barco atraca no local, a primeira parada é a lojinha da “Casa das Artesãs”, onde as fibras da palmeira de buriti extraídas na comunidade ganham formas de bolsas, tigelas, cestos, jogos americanos. As peças exalam bom gosto e um colorido vibrante. Mas são apenas uma espécie de apresentação do que ainda está por vir.

O ponto alto da visita é fazer os turistas vivenciarem a produção das peças com fibra de buriti. Da retirada do material, passando pelo tingimento todo feito com pigmentos de árvores, até o trançado. O passeio não é cobrado, até porque os visitantes acabam adquirindo produtos da lojinha.

O artesanato de Marcelino é realizado por 11 artesãs da comunidade, formada hoje por 360 famílias. Elas produzem de 70 a 80 peças por mês e as vende a clientes fixos e também por encomendas, em feiras, exposições e eventos.

Começamos com o apoio do Sebrae. Seguraram nossa mão, foram como pais e mães. Hoje conseguimos andar com as próprias pernas. Vendemos diretamente para lojistas, sem os atravessadores, para o Rio, São Paulo, Bélgica, Milão.

Josy Santos, artesã, ribeirinha e líder comunitária.

O apoio da instituição também foi importante para ampliar práticas sustentáveis, como o desenvolvimento dos 12 corantes naturais utilizados na confecção do artesanato, como o sororoca com urucum, jenipapo, pariri ou pau ferro. Josy relembra com entusiasmo do trabalho do grupo, ainda em 2001, indo para dentro da mata para catalogar árvores, depois fazer experimentos, testar até chegar a tingimentos naturais possíveis.

É de Marcelino também outra marca de autenticidade: os pontos cascudo e malha de cofo foram criados lá, conta Josy. Esses pontos são um tipo de trançado duplo, com se fossem dois tecidos sobrepostos, que valorizam o artesanato do povoado.

Segundo a artesã, o trabalho com o buriti é mais do que renda para as mulheres de Marcelino. Significa pertencimento, autonomia e força feminina. Bem-humorada, Josy fala que lá a única tarefa que o homem faz é pegar a palha da palmeira. “‘Ei, tu ainda trepa pra poder tirar a palha?’ A gente pergunta assim brincando”, gargalha a artesã.

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