O imaginário do ecossistema de inovação costuma associar startups a crescimento acelerado, rodadas sucessivas de investimento e expansão nacional ou global em poucos anos. Mas os dados mais recentes do Sebrae Startups Report Brasil 2025 mostram um cenário mais diverso — e estruturalmente diferente do mito do “cresça ou morra”.
Em dezembro de 2025, o Observatório Sebrae Startups mapeava 22.869 startups ativas no país, um crescimento de 26,7% em relação ao ano anterior. Apesar da expansão no número de empresas, a distribuição por estágio de maturidade indica que o crescimento acelerado está longe de ser a regra. Segundo o levantamento, 37,7% das startups estão na fase de validação e 25,1% ainda em ideação. Apenas 2,4% alcançaram o estágio de escala.
Os números ajudam a contextualizar uma discussão que vem ganhando força no mundo pós-ciclo de euforia do venture capital: crescer rapidamente não é o padrão — e tampouco é obrigatório para que uma startup seja bem-sucedida.
“Existe uma narrativa dominante de que startup precisa escalar em velocidade exponencial. Os dados mostram que o ecossistema é muito mais diverso. Há empresas que encontram sustentabilidade e impacto mesmo sem hiperescala”
Cristina Mieko, Head de Startups do Sebrae
A seguir, quatro modelos que ajudam a entender por que a não escalada é, na prática, uma condição frequente do ecossistema brasileiro.
Startups sustentáveis: crescer com previsibilidade
Nem toda startup busca rodadas milionárias. Uma parcela relevante opta por crescimento orgânico, controle societário e geração de caixa desde cedo. O report mostra que 56,1% das startups mapeadas declararam não ter faturamento no momento do levantamento — o que indica forte presença de negócios ainda estruturando produto e mercado. Entre as que faturam, a maioria está nas faixas até R$ 360 mil anuais.
Além disso, 39,1% utilizam modelo de receita baseado em assinatura (SaaS) , formato que favorece previsibilidade e recorrência — características típicas de empresas que priorizam sustentabilidade financeira. “Para muitos empreendedores, o sucesso está em construir uma operação financeiramente saudável e recorrente. Escalar é uma possibilidade, mas não é a única métrica de êxito”, afirma Cristina.
“Small Giants”: excelência em nichos específicos
O conceito de “small giants” descreve empresas que escolhem ser relevantes em mercados específicos em vez de perseguir expansão nacional ou global. O próprio recorte setorial do report indica espaço para esse perfil. Tecnologia da Informação lidera com 14,5% das startups, seguida por Saúde e Bem-Estar (11,8%) e Educação (8,5%). São segmentos com forte potencial de especialização vertical — soluções para cadeias produtivas, setores regulados ou públicos específicos.
Ao mesmo tempo, 50,5% das startups operam no modelo B2B . Atender empresas — especialmente pequenas e médias — frequentemente implica crescimento mais gradual, com ciclos comerciais mais longos e expansão por carteira, não por viralização. “Nichos bem-atendidos podem gerar negócios robustos e duradouros. O impacto econômico não depende necessariamente de escala massiva, mas de resolver problemas reais com eficiência”, diz Cristina Mieko.
Zebras: sustentabilidade antes da hiperescala
Em contraponto ao símbolo do unicórnio, o movimento das “zebras” defende negócios lucrativos, resilientes e comprometidos com impacto. Os dados de maturidade reforçam que o ecossistema brasileiro ainda está em fase de consolidação: 37,7% em validação e 23,7% em tração. A predominância de software (39,3%) e serviços (35,8%) como principais produtos indica modelos de menor intensidade de capital em comparação a hardware ou deeptech.
Nesse contexto, buscar equilíbrio financeiro pode ser mais estratégico do que perseguir crescimento a qualquer custo. “O ciclo recente de mercado reforçou a importância de modelos sustentáveis. Crescimento sem base financeira sólida deixou de ser prioridade. Hoje, maturidade e eficiência ganham espaço”, comenta Cristina Mieko, do Sebrae.
Startups regionais: crescimento alinhado às vocações locais
O Brasil apresenta um modelo cada vez mais distribuído de inovação. Embora o Sudeste concentre 36% das startups, o Nordeste já representa 25,2% e registrou o maior crescimento percentual ano a ano. Estados como Pernambuco (+72,2%), Bahia (+47,4%) e Rio Grande do Sul (+44,4%) se destacam pelo avanço recente.
Esse padrão multi-hub indica que parte relevante das startups nasce para atender demandas regionais — agronegócio local, turismo, saúde pública, educação técnica, serviços especializados. São negócios que podem crescer de forma consistente sem necessariamente se tornarem nacionais. “O fortalecimento de pólos fora do eixo tradicional mostra que inovação não é sinônimo de centralização. Muitos negócios encontram mercado suficiente em seus próprios territórios”, avalia Cristina.
O ecossistema brasileiro de startups, ao que indicam os números, é majoritariamente composto por empresas em construção, muitas delas orientadas a nichos e mercados regionais. O mito do crescimento exponencial como regra universal perde força diante da evidência empírica: sucesso também pode significar estabilidade, impacto local e geração de valor sustentável.

