Quem caminha pelas ruas na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) costuma prestar atenção nos escritores, nos lançamentos e nos debates. Mas outra história acontece nos bastidores: a de centenas de pequenos empreendedores que fazem o mercado editorial funcionar e ajudam a ampliar a diversidade da literatura brasileira. Transformar uma boa história em um negócio sustentável é um desafio enfrentado por pequenas editoras e autores independentes. É nesse ponto que o Sebrae Rio atua ao levar para a FLIP profissionais do setor editorial e promover uma programação voltada ao fortalecimento da economia criativa.
A FLIP foi encerrada neste domingo, 26/7, com um recorde de cerca de 40 mil pessoas que passaram por Paraty, o maior público da história do festival. Mais de 5 mil visitantes passaram pela Casa da Leitura e do Conhecimento, onde o Sebrae Rio reuniu escritores, editores, ilustradores, pesquisadores, jornalistas e produtores culturais em uma agenda que combinou conteúdo, relacionamento e oportunidades de negócios.
Realizada em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (SECEC-RJ) e Prefeitura de Paraty, a programação envolveu oito mesas do Vozes Literárias Sebrae, além de 15 lançamentos e relançamentos de livros na Vitrine Literária, dando visibilidade ao trabalho de pequenas editoras fluminenses. O espaço também contou com a Estante Literária, que exibiu 40 títulos durante a FLIP. Na Estação Literária Sebrae, houve apresentações de autores renomados, como Mariana Carrara, Giovani Martins, Pedro Pacífico, Andrea Del Fuego e Socorro Acioli, essas duas na lista dos 10 livros mais vendidos na livraria oficial da FLIP.
Mais do que incentivar a produção de livros, o espaço buscou fortalecer a gestão desses empreendimentos. A gestora estadual do projeto Mercado Editorial e Literatura Criativa do Sebrae Rio, Nathália Azevedo, explica que o apoio vai muito além da capacitação tradicional:
“O Sebrae ensina a colocar a mão na massa. Trabalhamos gestão financeira, marketing, redes sociais, além de conectar esses profissionais a fornecedores e parceiros estratégicos do mercado editorial. O objetivo é ajudá-los a construir negócios sustentáveis.”
Segundo ela, a FLIP também se consolida como ambiente de conexão entre os diversos agentes do setor. Nessa edição, mais de 25 profissionais literários participaram dos debates do Vozes Literárias Sebrae e cerca de 40 títulos permaneceram expostos ao longo da programação, ampliando a visibilidade das editoras independentes.
Para Nathália, um dos melhores resultados do trabalho é contribuir para a chamada bibliodiversidade — conceito que defende uma produção editorial plural, capaz de representar diferentes territórios, culturas, identidades e formas de contar histórias. Afinal, pequenas editoras costumam dar espaço a narrativas que muitas vezes não encontram lugar nas grandes, ajudando a tornar a literatura mais diversa.
A coordenadora de Economia Criativa do Sebrae Rio, Marcela Abla, lembra que o mercado editorial independente movimenta um número expressivo de empreendedores, embora ainda seja pouco visível:
“Esse é um mercado muito forte, mas ainda pouco percebido. Trazer essas editoras para a FLIP significa dar luz a negócios que já existem e têm enorme potencial de crescimento. O Sebrae trabalha justamente para que esses pequenos empreendedores tenham condições de crescer.”
Para muitas dessas editoras, participar da FLIP seria praticamente inviável sem suporte. Editor da Opportuna, Gustavo Lima afirma que o Sebrae funciona como uma ponte entre os pequenos empreendedores e um dos principais eventos literários da América Latina.
“Como uma editora pequena consegue entrar num espaço desse sem conhecer ninguém? O Sebrae abre essa porta e oferece apoio antes, durante e depois do evento”, destaca.
Para aproveitar a oportunidade, o editor conta que passou cerca de um mês planejando sua participação. Produziu camisetas, marcadores de página com imagens de Paraty e materiais de divulgação para apresentar a editora ao público e transformar a experiência em novas oportunidades de negócios.
A experiência também marcou o escritor Luís Paulo Borges, autor da Editora Opportuna, que participou da FLIP pela primeira vez. Segundo ele, o apoio recebido foi além da infraestrutura:
“Foi minha primeira participação como autor na FLIP e o Sebrae nos acolheu com orientação e muito cuidado. Para quem está começando, esse acompanhamento faz toda a diferença. A gente sente que este também é um espaço feito para os autores.”
Público destaca a diversidade
Para a publicitária Flávia Carrijo, o fortalecimento das pequenas editoras tornou a programação paralela da FLIP ainda mais rica:
“Fiquei impressionada com a quantidade de pequenas editoras presentes. Elas trouxeram uma diversidade enorme de temas, públicos e propostas. Isso deu um sabor ainda maior para a FLIP.”

A diversidade também foi percebida pelo público. Frequentadora assídua do festival, a aposentada Vera Lúcia Souza destaca que os debates ampliam horizontes e despertam novos olhares:
“A diversidade de temas faz a gente sair daqui com a mente mais aberta. É um espaço que nos faz conhecer outras histórias e outras formas de pensar.”
A Casa da Leitura e do Conhecimento também abriu espaço para outras expressões da economia criativa. Além do mercado editorial, o Sebrae Rio levou para o espaço iniciativas ligadas ao artesanato, às artes visuais e a outros segmentos da economia criativa, reforçando a proposta de integrar diferentes manifestações culturais em um mesmo ambiente.
Artista plástica Sandra Barreiro, moradora de Paraty, expôs pela primeira vez suas obras em um evento público. Produtora e proprietária de um ateliê de portas fechadas, ela considera a oportunidade fundamental para ampliar sua visibilidade:
“Foi muito importante mostrar meu trabalho para um público tão grande. Para quem trabalha em ateliê, esse contato direto faz toda a diferença.”
O espaço também expôs obras das Rosangela Jotta, Monique Farias e Vanda de Araújo, moradoras de Paraty, e abrigou obras do acervo do Centro de Referência do Artesanato Brasileiro – CRAB.