As paredes do Centro Macaé de Cultura ganham uma nova dimensão de cores, identidade e memória com a realização de um grande mural artístico assinado pelo artista urbano Marlon Muk, que há 28 anos se dedica à arte urbana. A obra, produzida na categoria mural e inserida no universo da street art, ocupa aproximadamente 3.850 metros quadrados em cada lado do prédio, transformando a paisagem urbana em uma grande homenagem à cultura, à educação e à população de Macaé. O trabalho foi realizado ao longo de aproximadamente 30 dias, considerando todas as etapas de preparação, instalação do sistema de acesso por andaime suspenso, organização dos materiais, estudos estruturais do prédio e execução. A pintura dos dois lados do edifício foi concluída em 14 dias. Cerca de 10 pessoas participaram diretamente da produção, entre profissionais da equipe artística, técnicos de segurança, engenheiro, produção e registro.
O mural foi concebido para contar uma história sobre Macaé por meio de seus personagens, símbolos e manifestações culturais. Em um dos lados, a identidade da cidade é representada pela figura de uma criança macaense feliz, que veste uma camisa com estampa inspirada em Maria José Guedes, personagem de grande relevância para a história cultural do município e que dá nome à Escola Municipal de Artes Maria José Guedes, instalada no Centro Macaé de Cultura.
A composição também incorpora elementos pessoais e afetivos. As digitais das crianças retratadas na obra foram fotografadas pelo próprio artista, posteriormente vetorizadas e aplicadas ao mural por meio de videoprojeção. Dessa forma, as digitais de Davi e Giullia, modelos reais, aparecem integradas à composição, buscando enfatizar a ideia de identidade e pertencimento.
No outro lado do prédio, a figura de uma mãe representa o papel da família e dos responsáveis na formação das crianças. A imagem dialoga com temas como educação, beleza e cultura, trazendo referências à dança e ao balé como expressões capazes de despertar sensibilidade, criatividade e novas possibilidades na vida das pessoas.
A obra também reserva espaço para destacar a música e a história cultural de Macaé. Na parte inferior, duas paredes irão ressaltar a figura de Benedito Lacerda, compositor, flautista e maestro brasileiro nascido no município, que desde pequeno frequentou a Sociedade Musical Nova Aurora. Elementos relacionados ao universo musical complementam a homenagem e ampliam o diálogo do mural com a trajetória artística da cidade.
Para Marlon Muk, a principal mensagem da obra é de orgulho e pertencimento.
“Os macaenses têm motivos de sobra para ter muito orgulho da cidade e da cultura”, resume o artista, que buscou criar uma composição acessível e plural, capaz de estabelecer uma relação direta com quem circula pelo espaço.
A relação do artista com o Centro Macaé de Cultura torna o trabalho ainda mais simbólico. Foi no próprio espaço que Marlon teve seu primeiro trabalho profissional como artista, em 1999. Décadas depois, retornar ao local para deixar uma obra dessa proporção representa, para ele, um momento especial de sua trajetória.
“Estar estampando o prédio é motivo de muito orgulho”, destaca Marlon, ao lembrar do início de sua carreira. Para o artista, o mural representa também um reconhecimento profissional dentro de sua própria cidade e o resultado de anos de estudo e amadurecimento artístico e técnico.
“Representa o reconhecimento máximo dentro da minha cidade, um amadurecimento, um conteúdo técnico, resultado de muito estudo. Traz muita felicidade. Representa uma bandeira estendida no município. Estou aqui para fazer o melhor”, afirma.
A secretária municipal de Cultura, Waleska Freire, falou sobre a importância do trabalho.
“O mural artístico no prédio da Cultura traz identidade e visibilidade ao nosso espaço, convidando a cidade a reconhecer e celebrar a produção cultural local. É sinal de que a cultura está viva no centro da cidade. Além disso, o trabalho dá nome e rosto a um lugar que antes passava despercebido, tornando o espaço mais acolhedor e fortalecendo o vínculo entre a instituição e a comunidade”, destaca.
Arte urbana como aproximação com a populaçãoCom a intervenção, a arte urbana passa a ocupar um espaço de destaque em um equipamento cultural público, aproximando a população da produção artística e valorizando referências da história local. Para Marlon, essa aproximação é uma das principais forças da street art.
“A arte urbana pode estreitar essa relação com a população da cidade. Mostrar que o poder público e nós, artistas, estamos preocupados em fazer uma arte plural, que possa ter o entendimento das pessoas que passam e observam esse trabalho, é também uma homenagem à nossa cidade e à nossa população”, explica.
O desafio técnico para a execução de um mural dessa dimensão também foi importante. O trabalho em altura exigiu planejamento, acompanhamento especializado e cuidados permanentes com segurança. As condições de vento e a necessidade de movimentação no sistema suspenso tornaram a execução diferente de uma pintura realizada no solo.
“Pintar na altura é sempre um desafio. Tem a questão do vento e não podemos trabalhar no jaú de qualquer maneira, por questões de segurança. Não é a mesma coisa que estar pintando no chão. No alto, sempre existem grandes desafios”, relata.
Um artista que ajudou a construir a cena urbana de MacaéMarlon Muk iniciou sua trajetória no grafite em 1998, acompanhando o crescimento do movimento da arte urbana no estado do Rio de Janeiro, especialmente na capital. Em Macaé, começou realizando intervenções artísticas nos muros, muitas vezes percorrendo a cidade e batendo de porta em porta para apresentar seu trabalho em uma época em que o grafite ainda era pouco conhecido.
Ao longo de 28 anos, acompanhou a transformação da arte urbana e a ampliação dos espaços destinados a esse tipo de expressão.
“Não tinha ideia da evolução que isso teria hoje em dia, e hoje dão espaço e me apoiam de forma tão positiva”, conta.
O artista define seu estilo como resultado de uma busca permanente por aprendizado.
“Sou um eterno estudante de arte”, afirma.
Em suas obras, procura conectar diferentes elementos para construir uma identidade própria para cada trabalho. Entre suas principais características está a valorização da figura humana, especialmente das expressões faciais e da anatomia.
