Na Google I/O, principal conferência anual da gigante de tecnologia na Califórnia, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) levou ao debate internacional o novo desafio estrutural dos pequenos negócios: o domínio prático da inteligência artificial (IA). “O gargalo não está mais no acesso às ferramentas, mas na capacidade de aplicá‑las no dia a dia”, afirmou Eduardo Curado Matta, gerente de Soluções da instituição.
A análise foi apresentada durante o painel “The Economic Engine: How AI is Driving Growth” (O Motor Econômico: Como a IA está impulsionando o crescimento), que reuniu lideranças dos setores público e privado. Além do representante brasileiro, integraram a mesa Jonathan Dupont, sócio da Public First; Linda Moore, presidente e CEO da TechNet; e Jon Berroya, diretor de políticas públicas do Google.
A inserção do Sebrae em um dos palcos mais disputados do Vale do Silício, tradicionalmente voltado a desenvolvedores e empresas de inovação de ponta, sinaliza a entrada definitiva das micro e pequenas empresas no debate global sobre a transformação digital e a soberania tecnológica.
O diagnóstico levado por Matta contrasta com a percepção comum sobre a difusão da IA no mercado externo. Dados de uma pesquisa conjunta entre Sebrae, FGV e Google indicam que a tecnologia já faz parte do vocabulário, mas ainda não da rotina do empreendedor nacional: embora expressivos 96% dos donos de pequenos negócios no Brasil declarem conhecer as ferramentas de IA, apenas 46% de fato as utilizam nas operações diárias.
De acordo com o estudo, o principal entrave não é financeiro. Apenas 13% dos empresários apontam o custo das ferramentas como a maior dificuldade. Por outro lado, 23% afirmam categoricamente que não sabem como aplicar a inteligência artificial ao próprio modelo de negócio — o que desloca o problema do campo tecnológico para o educacional. “Não é um problema de tecnologia, é um problema de viabilização”, resume o documento estratégico levado pela entidade.
A discussão ganha relevância no momento em que a IA se consolida como uma tecnologia de propósito geral, com impacto direto sobre a produtividade e a competitividade global. Em economias emergentes, contudo, a transição para a chamada economia cognitiva ocorre sobre bases digitais ainda frágeis.
Os indicadores mostram que mais da metade das empresas de menor porte no Brasil ainda carece de sistemas integrados de gestão (53% não possuem ERP) e apenas um terço (32%) utiliza ferramentas estruturadas de relacionamento com clientes (CRM). Plataformas de mensageria, como o WhatsApp Business, embora presentes em 57% dos estabelecimentos, operam de maneira isolada e raramente integram estratégias de dados mais amplas.
Esse cenário de baixa digitalização limita o potencial de ganho com tecnologias avançadas. Aplicações de IA, sobretudo as generativas, dependem de dados organizados e fluxos operacionais consolidados para gerar retornos mensuráveis.
A articulação do Sebrae nos Estados Unidos reflete a meta de posicionar as micro e pequenas empresas como protagonistas da transformação digital, desmistificando o papel de meras usuárias periféricas de tecnologia. No Brasil, o segmento responde por 95% das empresas formais e detém um peso macroeconômico crucial, gerando 30% do PIB nacional. A avaliação defendida pela instituição é que, por sua capilaridade territorial e escala de atuação, ela funciona como o veículo necessário para traduzir o desenvolvimento tecnológico global para a realidade local dos empreendedores.
A estratégia também se conecta ao aprofundamento das parcerias comerciais com big techs. No caso do Google, a cooperação envolve investimentos crescentes em infraestrutura de nuvem, projetando um salto de R$ 680 mil em 2025 para cerca de R$ 3,9 milhões em 2026, com foco em capacitação e na integração nativa de ferramentas digitais. Paralelamente, o Sebrae fomenta um ecossistema local, acelerando startups que desenvolvem soluções de IA sob medida para o mercado brasileiro, reduzindo a dependência de matrizes desenhadas para economias maduras.
No painel, a contribuição brasileira inseriu uma perspectiva pragmática em um debate frequentemente dominado pelo otimismo tecnológico: a complexidade de transformar o acesso bruto em uso efetivo.
Ao apresentar esse panorama na Google I/O, o Sebrae tenta redefinir o conceito de democratização tecnológica. A mensagem central da delegação brasileira é que ampliar o impacto econômico da inteligência artificial depende menos de expandir a oferta de novos softwares e mais de construir capacidades internas, traduzir processos e incorporar de forma orgânica as novas soluções à rotina das empresas.
