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Pesquisadora Tatiana Sampaio lota auditório do Nupem/UFRJ em Macaé

Redação 2 by Redação 2
15 de agosto de 2026
in Macaé
Tempo de 5 Minutos de leitura
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O histórico da pesquisa que deu origem a polilaminina, substância comprovadamente segura e que evidenciou níveis de recuperação em 75% dos casos revisados por pares na fase 1 de testes de segurança em 8 pacientes com lesão medular grave; dificuldades do presente, perspectivas futuras, interiorização do Ensino Superior, patente, complexo de vira-lata e machismo. Esses foram alguns dos temas abordados pela pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana Sampaio, na aula inaugural para estudantes ingressos neste segundo semestre letivo no Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade de Macaé (Nupem/UFRJ) e em respostas à imprensa. A visita ocorreu na manhã de sexta-feira (14), no auditório do Nupem, que atingiu lotação.  “Participei das primeiras fases do Nupem. Já dei aulas aqui e acredito que esta interiorização é importante (…) em 1997, descobrimos um jeito para fazer com que a laminina (célula isolada) voltasse a ter uma estrutura bastante semelhante à estrutura original (no corpo humano), uma camada de laminina, a polilaminina que produzimos no laboratório. A pergunta era: será que ao recuperarmos a estrutura original da laminina, conseguiríamos uma ferramenta que gerasse resultados melhores do que a laminina sozinha? Escolhemos o sistema nervoso central e começamos os experimentos com animais. Verificamos sucesso no laboratório. Os axônios (comparados a um fio do neurônio) estavam crescendo dentro da polilaminina (comparada a um conduíte, um eletroduto). Então montamos uma equipe multidisciplinar para a elaboração de um protocolo para aprovação junto à Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. Submetemos o protocolo em 2012 e foi aprovado em 2013. Nos perguntavam se nada assim havia sido feito nos EUA, na China, ou em outro lugar. Não tinha”, contou a pesquisadora.
O estudo clínico foi publicado no último dia 4, A revista científica Spinal Cord (Springer Nature) publicou o artigo ‘Intramedullary injection of polymerized laminin in acute traumatic spinal cord injury: a first-in-human pilot study’, sobre o primeiro teste da polilaminina em seres humanos. O estudo com oito pacientes (2018 a 2021) foi revisado por pares. Entre oito pacientes com lesão medular de vários níveis foi verificada segurança da injeção na medula. As duas mortes ocorridas não estavam relacionadas ao experimento. Ocorreram por complicações dos acidentes graves que os pacientes sofreram. Todos os que sobreviveram obtiveram evolução de movimentos e de sensibilidade. A doutora explicou que no caso deste estudo, além de testada a segurança (fase 1), foi gerada a eficácia (fase 2). Ela detalhou a metodologia da fase 1.
“No estudo foi atestado que 75% dos pacientes com maior comprometimento tiveram evolução para níveis menos graves. Na literatura científica, o índice do mesmo tipo de evolução é de cerca de 10%. Quando a pesquisa alcançar a fase 3, englobará um grupo maior de pacientes. O uso compassivo teve início em 2025, para pessoas com lesão completa da medula e em até 90 dias após a lesão. Mas em abril deste ano (2026), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) restringiu o uso para alguns casos, reduzindo o grupo de pessoas contempladas para uso compassivo. O critério agora é a liberação para os casos de lesão da T2 a T10 e após três dias da lesão (…). Esse é um problema presente. Não podemos atender fora dos critérios da Anvisa. Precisamos iniciar os estudos regulatórios para a aprovação da Anvisa (fases 1, 2 e 3) e o registro do medicamento para distribuição, devido à exigência da qualidade do material. Isso pode demorar cerca de 6 ou 7 anos. A Anvisa é uma agência muito séria, dentro dos padrões internacionais, e ser difícil faz parte do processo”, explicou.
Questionada se o fato de ser uma mulher brasileira poderia influenciar na credibilidade dos resultados da pesquisa, a professora respondeu:
“O fato de eu ser mulher traz algumas dificuldades para ser considerada uma grande cientista. Ao longo da minha vida fui pouco vítima de machismo. Mas, neste momento, começo a sentir um pouco desta resistência por eu ser mulher, uma carioca. Um medicamento que talvez seja o primeiro a trazer um efeito positivo para casos muito dramáticos, ninguém esperava que sairia de um laboratório brasileiro, com pouca estrutura de financiamento. Esta é uma coisa que ninguém tinha conseguido antes. Acho que incomoda um pouco e há também um certo complexo de vira-lata”, observou.
“Tivemos uma interação com uma empresa farmacêutica francesa. Nosso projeto foi selecionado em primeiro lugar. Mas eles acharam que a patente que tínhamos era fraca e não seria cedida na íntegra. Assim, eles não poderiam explorar comercialmente. Se tivessem comprado, só eles teriam o direito de fazer e de vender o medicamento durante cerca de vinte anos. Mas nós não conseguimos proteger as informações de forma que pudéssemos vendê-las e isso foi bom para o Brasil, para que o medicamento esteja disponível o mais amplamente possível”, completou. O laboratório brasileiro responsável pelo desenvolvimento em larga escala e produção da polilaminina é o Laboratório Cristália.Homenagens de Macaé
A diretora-geral do Nupem/UFRJ, Cíntia Monteiro de Barros, agradeceu a aula inaugural à Tatiana Sampaio.
“As pessoas às vezes não têm noção do tempo que se leva até se desenvolver um medicamento. Você começou estudar a laminina em 1997. Foram muitos testes até chegar a este ponto. Macaé foi a primeira cidade do interior do estado a ter campus da UFRJ. É muito importante para nós, alunos e sociedade, termos uma pesquisadora como você aqui. O Nupem está sempre buscando trazer mais conhecimento para Macaé para crescermos como instituição de Ensino Superior no Estado do Rio de Janeiro. Somos hoje uma instituição multidisciplinar”, disse.
A secretária executiva de Educação Superior, Iza Vicente, representou o prefeito Welberth Rezende no evento.
“É um grande marco recebermos uma cientista tão renomada de uma universidade pública e com um trabalho tão relevante aqui na nossa cidade para falar para os nossos alunos. Ela irá inspirar outros jovens e mulheres, porque a ciência e o estudo valem a pena e transformam vidas. A interiorização da UFRJ fez com que a região tivesse mais graduados, mestrados e doutorados, o que propicia o desenvolvimento socioeconômico e humano. A universidade pública no interior garante a democratização do acesso ao Ensino Superior”, enfatizou.
A vereadora Leandra Lopes entregou uma Moção da Câmara de Vereadores de Macaé à bióloga, juntamente com a vereadora e médica Mayara Rezende.
“É motivo de muito orgulho recebermos a Dra. Tatiana Sampaio, que está mostrando como é importante a ciência no processo de transformação de vidas. Esta homenagem da Câmara de Vereadores é um presente da cidade. Uma cientista mulher, neste momento, quando passamos pela descredibilização da mulher e por violência, é trazer uma referência que mostra que lugar de mulher é onde ela quiser”, ressaltou.
Ingressando no curso de Farmácia da UFRJ/Macaé e moradora de Rio das Ostras, Júlia Barroso (19 anos), disse que se sentia inspirada pela trajetória de Tatiana Sampaio.
“Fiquei muito emocionada. Estou muito feliz por ter tido esta oportunidade de estar aqui e pela palestra ter sido aberto para perguntas dos alunos. Penso em desenvolver uma pesquisa na área de oncologia”.
No Brasil, mais de 100 pacientes já receberam a polilaminina por meio de decisões judiciais ou autorizações de uso compassivo. Isso porque a eficácia definitiva ainda precisa ser comprovada em ensaios clínicos controlados. Tatiana Sampaio é chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB/UFRJ). Ela tem mestrado e doutorado em Ciências pela UFRJ e é Pós-Dra. pela Universidade de Illinois (EUA) e pela Universidade de Erlangen-Nuremberg (Alemanha). A aula inaugural ‘Polilaminina: passado, presente e futuro’ está acessível por meio deste link: https:/www.youtube.com/@institutonupem.

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