A economia de um país não pode ser medida apenas pelo desempenho da bolsa de valores, pela cotação do dólar ou pelos resultados do sistema financeiro. Esses indicadores são importantes, mas não estão no cerne das comunidades, nos bairros e nas periferias. A verdadeira dimensão de uma economia está na vida das pessoas, na capacidade de gerar oportunidades, distribuir renda e garantir condições dignas para que todos possam prosperar. É por isso que acredito que dinheiro na mão de poucos não faz a economia crescer. O que faz a economia crescer é dinheiro na mão de todos. Quando a renda chega à população, o consumo aumenta, o comércio se movimenta, os pequenos negócios crescem e a roda da economia gira. Essa é a força da pequena economia brasileira, formada por milhões de homens e mulheres que acordam todos os dias para trabalhar, empreender e transformar suas realidades.
As micro e pequenas empresas representam mais de 95% dos negócios brasileiros e têm papel decisivo na geração de empregos e na inclusão produtiva. No ano passado, responderam por mais de 80% dos empregos formais gerados no país e este ano já ultrapassam os 60%. É um universo que precisa ser reconhecido e valorizado, porque por trás de cada CNPJ existe uma história, uma família, um sonho e, muitas vezes, a única oportunidade de conquistar autonomia financeira.
O Sebrae tem uma missão fundamental nesse processo. Ano passado, realizamos 65 milhões de atendimentos e este ano, até gora, já chegamos a 58 milhões. Esses resultados são fruto do trabalho coletivo de uma instituição que acredita nas pessoas e conhece de perto os desafios de quem empreende. Nossa credibilidade nasce justamente da capacidade de transformar vidas.
Também precisamos compreender que o desenvolvimento econômico exige políticas públicas capazes de enfrentar desigualdades históricas e ampliar oportunidades. A Reforma Tributária, aguardada pelo país há mais de 30 anos, representa um passo importante nessa direção. Defendemos uma reforma que contribua para uma distribuição de renda mais justa e para um ambiente de negócios mais equilibrado.
É preciso avançar também na proteção e no fortalecimento dos microempreendedores individuais. Entre as medidas que integram essa agenda estão a ampliação do teto de faturamento anual para até R$ 140 mil, a possibilidade de contratação de dois empregados e o perdão de dívidas tributárias federais. Somam-se a elas iniciativas como o Desenrola 3.0, que prevê a renegociação de dívidas privadas com descontos de pelo menos 90%; o Pix MEI, com apoio produtivo de até R$ 5 mil a fundo perdido; e a criação do NanoMEI, categoria prevista no âmbito da Reforma Tributária, a partir de 2027, para trabalhadores por conta própria com faturamento anual de até R$ 40.500. A ampliação do acesso às compras públicas, com processos licitatórios exclusivos para esse público em contratações de até R$ 32.746,06, também pode abrir novas portas para quem empreende.
O desenvolvimento, no entanto, não pode ser pensado apenas pelo lado da produção e do faturamento. Ele precisa considerar a qualidade de vida, o tempo, a saúde e a dignidade dos trabalhadores. É nesse sentido que o debate sobre o fim da escala 6×1 ganha importância. A proposta prevê, no mínimo, oito folgas em um período de 30 dias, com distribuição dos descansos de acordo com as características de cada atividade e respeito às condições estabelecidas pela proposta e pelos acordos coletivos.
Humanizar as relações de trabalho não significa enfraquecer a economia. Significa reconhecer que o trabalho deve estar a serviço da vida, e não o contrário. Da mesma forma, precisamos enfrentar os impactos das apostas on-line, que têm provocado consequências preocupantes para as famílias e para os pequenos negócios. Os custos sociais associados aos jogos são estimados em R$ 38,8 bilhões anuais, dos quais R$ 30,6 bilhões estão relacionados à saúde. Pesquisa do Sebrae aponta que 65,7% dos entrevistados apoiam a proibição das bets. O levantamento também mostra que 26,2% das empresas consultadas relataram queda no faturamento atribuída às apostas nos últimos 12 meses. Não podemos aceitar que interesses econômicos se sobreponham à proteção das pessoas e das famílias.
Os sinais de que a renda e o consumo têm impacto direto sobre a atividade econômica também aparecem no cotidiano. A Associação Brasileira de Supermercados registrou crescimento de 6,5% no varejo alimentar na semana de 5 a 11 de outubro de 2026 e de 6,3% entre os dias 12 e 18, na comparação com os mesmos períodos do ano anterior. Na pesquisa do Sebrae, 38,1% dos empreendedores esperam aumento nas vendas. São indicadores que ajudam a compreender a importância de uma economia que movimenta o comércio, fortalece os pequenos negócios e chega à mesa das famílias. Precisamos, portanto, combater as narrativas que tentam transformar medidas de inclusão e humanização em ameaças ao desenvolvimento. A economia não pode ser reduzida aos interesses de poucos setores. Ela precisa refletir a realidade da maioria da população brasileira.
Essa visão também exige compromisso com a democracia, com o respeito às diferenças e com o combate à desinformação e ao discurso de ódio. Uma sociedade plural não se constrói pela intolerância, mas pela capacidade de conviver com opiniões distintas e encontrar caminhos coletivos. O Brasil tem uma história marcada por desigualdades profundas, mas também reúne riquezas humanas, naturais e econômicas extraordinárias. Precisamos olhar para o nosso país com confiança e reconhecer a força de quem produz, trabalha e empreende em todos os territórios. O Sebrae tem um papel estratégico nessa construção, porque está ao lado de quem enfrenta diariamente as dificuldades de um mercado que nem sempre foi pensado para a pequena economia.
Ao longo da minha trajetória à frente do Sebrae, aprendi ainda mais que a cabeça pensa onde o pé pisa. Conhecer de perto a realidade dos empreendedores brasileiros é compreender que, por trás dos números, existem pessoas que não desistem. É essa gente que nos inspira e dá sentido ao nosso trabalho. Precisamos seguir construindo um Brasil mais inclusivo, democrático e solidário, no qual o desenvolvimento seja compartilhado e as oportunidades alcancem a todos.